Não gosto de ver fotos de lugares onde já estive. Melhor: não gosto de ver o lugar onde estive pela visão do outro. Venha-me mostrar fotos de sua recente viagem à Munique, mas não me culpe se observá-las sem fazer qualquer comentário. Sim, eu já estive lá. Duas vezes, ou três. Adorei tanto que voltei. Mas a Munique que conheço é só minha, e a idéia de compartilhá-la não me agrada.
Quando a cidade é ‘desbravada’ por revistas de viagens ou programas de TV meu incômodo cresce ainda mais. Me angustia a superficialidade como Barcelona é resumida em clichês: nightlife style, baladas que adentram a madrugada, ou point jovem do mediterrâneo. Paris resume-se à romantismo e cultura, e dessa forma o senso-comum segue determinando a personalidade de cada canto do mundo.
Não é algo que me acontece apenas quando se trata de cidades européias. Também sinto o mesmo quando o assunto é Paraty, Berlim, Florianópolis, São Francisco Xavier, Roma, Belém do Pará, Rio das Ostras, Tucson ou Analândia.
Explico-me: O momento em que conhecemos um lugar é único. Singular e exclusivo. O cheiro, a atmosfera, a cor, os sons e a temperatura são próprios daquele local, naquele instante. E se voltarmos em uma semana, será já outro local, com outras pessoas, sons e cores. Conhecer um lugar depende também de seu ânimo naquele momento. Me lembro de pisar em Veneza depois de uma noite mal-dormida no trem. Chovia e não consegui deixar minha mochila no albergue antes de sair para conhcer a cidade. Resultado: Podem dizer o que quiser, mas Veneza não me é nem metade da maravilha que verborreiam os jornalistas nos cadernos de turismo da Folha e do Estado.
Faz sentido? Conheci o Parque Nacional Yosemite, que fica na Califórnia, no inverno de 2002/03. Vivi 4 meses fantásticos por lá, onde conheci toda a sorte de pessoas, vi lugares espetáculares, experienciei momentos únicos. Se quero voltar?! Hell no! O Yosemite nunca mais será o mesmo. Não quero nem mesmo comparar a sua experiência com a minha, o que certamente me causaria uma saudade imensa daquele inverno.
Heráclito disse que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio. Na verdade ele disse isso de maneira mais bonita: Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.
É como se minha relação com aquela cidade fosse tão exclusiva que vê-la sendo explorada por outrem me causasse ciúme. Ciúme urbano. A mesma sensação de invasão de quando conhecemos uma música antes de ela estourar nas rádios, e queremos dizer a todos: “Ei, olha! Eu já conhecia e sabia cantar antes de vocês!! Essa música é mais minha do que sua!”. Ou você nunca sentiu isso?
Assisti “Antes do Amanhecer” com Ethan Hawk e Julie Delpy. Dica da minha boa amiga Silvia. A última sequência do filme mostra os lugares de Viena onde o casal acabara de passar a noite anterior, conversando e conhecendo-se. São lugares que significam coisas diferentes para cada pessoa que esteve ali.
As cenas podem ser julgadas dentre as mais poéticas do cinema e são acompanhadas pela música de Yo-Yo Ma e Kenneth Cooper. Se ainda não viu o filme, não perca. Mas deixe o Kleenex de prontidão, você vai precisar.
Escrito por Olaf Bringen
Escrito por Olaf Bringen 
Escrito por Olaf Bringen 

