A efemeridade das coisas

6 Outubro 2008

Não gosto de ver fotos de lugares onde já estive. Melhor: não gosto de ver o lugar onde estive pela visão do outro. Venha-me mostrar fotos de sua recente viagem à Munique, mas não me culpe se observá-las sem fazer qualquer comentário. Sim, eu já estive lá. Duas vezes, ou três. Adorei tanto que voltei. Mas a Munique que conheço é só minha, e a idéia de compartilhá-la não me agrada.

Quando a cidade é ‘desbravada’ por revistas de viagens ou programas de TV meu incômodo cresce ainda mais. Me angustia a superficialidade como Barcelona é resumida em clichês: nightlife style, baladas que adentram a madrugada, ou point jovem do mediterrâneo. Paris resume-se à romantismo e cultura, e dessa forma o senso-comum segue determinando a personalidade de cada canto do mundo.

Não é algo que me acontece apenas quando se trata de cidades européias. Também sinto o mesmo quando o assunto é Paraty, Berlim, Florianópolis, São Francisco Xavier, Roma, Belém do Pará, Rio das Ostras, Tucson ou Analândia.

Explico-me: O momento em que conhecemos um lugar é único. Singular e exclusivo. O cheiro, a atmosfera, a cor, os sons e a temperatura são próprios daquele local, naquele instante. E se voltarmos em uma semana, será já outro local, com outras pessoas, sons e cores. Conhecer um lugar depende também de seu ânimo naquele momento. Me lembro de pisar em Veneza depois de uma noite mal-dormida no trem. Chovia e não consegui deixar minha mochila no albergue antes de sair para conhcer a cidade. Resultado: Podem dizer o que quiser, mas Veneza não me é nem metade da maravilha que verborreiam os jornalistas nos cadernos de turismo da Folha e do Estado.

Faz sentido? Conheci o Parque Nacional Yosemite, que fica na Califórnia, no inverno de 2002/03. Vivi 4 meses fantásticos por lá, onde conheci toda a sorte de pessoas, vi lugares espetáculares, experienciei momentos únicos. Se quero voltar?! Hell no! O Yosemite nunca mais será o mesmo. Não quero nem mesmo comparar a sua experiência com a minha, o que certamente me causaria uma saudade imensa daquele inverno.

Heráclito disse que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio. Na verdade ele disse isso de maneira mais bonita: Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.

É como se minha relação com aquela cidade fosse tão exclusiva que vê-la sendo explorada por outrem me causasse ciúme. Ciúme urbano. A mesma sensação de invasão de quando conhecemos uma música antes de ela estourar nas rádios, e queremos dizer a todos: “Ei, olha! Eu já conhecia e sabia cantar antes de vocês!! Essa música é mais minha do que sua!”. Ou você nunca sentiu isso?

Assisti “Antes do Amanhecer” com Ethan Hawk e Julie Delpy. Dica da minha boa amiga Silvia. A última sequência do filme mostra os lugares de Viena onde o casal acabara de passar a noite anterior, conversando e conhecendo-se. São lugares que significam coisas diferentes para cada pessoa que esteve ali.

As cenas podem ser julgadas dentre as mais poéticas do cinema e são acompanhadas pela música de Yo-Yo Ma e Kenneth Cooper. Se ainda não viu o filme, não perca. Mas deixe o Kleenex de prontidão, você vai precisar.


A arte imita a vida? Ou a vida imita a arte?

22 Setembro 2008

Ano passado eu descobri MAUS, de Art Spiegelman, e fiquei fascinado com a idéia de uma história contada em quadrinhos ter sido considerada uma obra literária de primeira classe (ok, nem todo mundo concordou), chegando à honra de ter sido agraciada com o prêmio Pulitzer de literatura.

O livro vendeu milhões de cópias, Spieglman esteve na FLIP, a polêmica continuou (HQ pode ser considrado literatura?) mas o fato é que devorei o MAUS na primeira noite em que o tive em mãos. A história de Vladek Spieglman, um sobrevivente do holocausto judeu, é comovente e merecedora sim de ser difundida e premiada.

Começo citando MAUS pois ontem li um livro chamado PERSÉPOLIS (também com uma história contada por meio dos quadrinhos), cuja autora é a iraniana Marjane Satrapi, e que também tem como pano de fundo uma guerra.

Persépolis é uma aula de História contemporânea sobre uma região do mundo que nós brasileiros quase nada sabemos. Sem querer tirar os créditos de MAUS, cuja narrativa é sem dúvida mais “elaborada”, eu tenho que defender que Persépolis é mais interessante, pois conta a história de uma guerra até então muito pouco conhecida por mim. O conflito Irã-Iraque foi muito pouco divulgado ou explicado para nós, diferente da Segunda Guerra Mundial, tema até hoje bastante discutido.

Além de recomendar a leitura tanto de MAUS quanto de Persépolis, aproveito para lembrar quão visionário foi George Orwell em seu irretocável 1984: Em Persepolis, Marjane cita que a TV iraniana sempre divulgava dados sobre a guerra; Certo dia foi anunciado que o exército iraniano havia destruído 5 tanques e abatido 10 avióes iraquianos. Seu pai, sintonizando a rádio BBC, na verdade descobrira que naquele dia o exército iraquiano é que havia destruído aviões do Irã.

Falando sobre a mesma guerra, Marjane conta ainda que por volta de 1988 o Iraque propôs um cessar-fogo. O Irã negou, pois não aceitava uma “paz imposta pelo inimigo”. Mais tarde naquele mesmo ano o próprio governo chegou a admitir que não era economicamente interessante terminar a guerra.

Pode Orwell ter sido mais preciso, ao descrever o mundo que viveriamos num futuro próximo?

A arte imita a vida que copia de volta a arte. 

Em tempo: Persépolis virou filme em 2007.


Are we connected or what?

2 Setembro 2008

O programa Fantástico de ontem mostrou webcams em várias partes do planeta: uma na jaula do panda no zoológico, outra numa praia em algum país qualquer. Mas de todas apresentadas, achei muito interessante uma câmera instalada na boléia de um caminhão, que roda as estradas americanas dia e noite fazendo entregas e de lambuja ainda transmite as imagens da estrada à frente.

É claro que após a “reportagem” do fantástico, a internet bombou de pessoas procurando as webcams apresentadas, e claro que eu também estava lá, procurando o endereço da tal 18-wheeler. Achei o caminhãozão estacionado num posto, transmitindo ao vivo, mas com imagem estática completamente sem graça. Chama-se camstreams.com o site que hospeda essa webcam, e logo fui eu procurar algo mais interessante para bisbilhotar dentro do mesmo site. E não é que encontrei o caminhoneiro brasileiro Luis e seu filho, viajando da Califórnia até Maryland em um Peterbilt descarregando carros ao longo do caminho?

O Luiz já trabalha com isso há 16 anos nos EUA, e com a camera instalada no caminhão nós podemos observar seu caminho, as estradas, paisagens. Podemos até conversar e fazer-lhes perguntas, que são respondidas de maneira mais segura através do microfone (não acho que seria saudável ele tirar as mãos do volante para digitar as respostas!).

Não deixe de viajar com o Luiz por alguns instantes, e torça para que ele esteja lendo o CHAT naquele dia (nem sempre ele faz isso, pois alguns trechos merecem ser dirgidos com mais atenção), o que torna a experiência mais curiosa ainda.

http://braziliantruckdriver.camstreams.com/


Pronto. Inventaram o holograma.

1 Agosto 2008

Estava navegando no Youtube e me deparei com esse vídeo, logo na página principal. Quando a gente pensa que as novidades tecnológicas já estão começando a estagnar-se, vem um geek e deixa a gente de boca aberta.

E o que dá mais raiva é sempre a simplicidade da solução sugerida; fica aquele gostinho de “porque não pensei nisso antes…”

Agora, legal mesmo seria ver alguém se atrevendo a enfiar o dedo ali… 


Pagar mais pra quê?

30 Julho 2008

Meu pai é desses caras que acorda bem cedo, e adora sair no sábado pela manhã para tomar café na padaria, comprar feijão de corda no mercadão, cortar o cabelo. E sempre que vou visitá-lo participo desses programas. Dia desses fomos à um sebo no centro, que fica numa galeria já meio decadente da cidade (acho que 90% dos sebos estão localizados no centro, e a maioria deles faz questão de se instalar nas ruas mais decadentes possiveis).

Procura ali, pergunta aqui: “o senhor tem tal livro?”, “O que você tem do fulano?”, e dá que o rapazinho todo solícito consulta tudo no computador no fundo da loja, e responde prontamente que não tem, mas que se quiser ele manda trazer. Pergunta vai, pergunta vem, o fato é que pouca coisa ele tinha, mas o computador prometia a ele que qualquer livro que precisasse ele mandaria buscar.

Movido pela curiosidade, não pude deixar de dar uma espiadela na tela em que o livreiro tanto servia-se. A rápida olhada me deu a impressão de ver um site em que os sebos e livrarias se cadastravam para formar uma rede de contatos, onde pode-se pesquisar o acervo de outra loja e solicitar o livro. Algo meio corporativo, para uso interno, específico ao mercado.

De qualquer maneira fiquei feliz com a iniciativa; gostei de pensar que os sebos também entenderam como utilizar a internet em seu proveito próprio, ao invés de lamentar o crescente aumento de venda de livros novos online, nos sites das grandes livrarias como Saraiva ou Cultura ou mesmo Submarino e Americanas.
 
A história poderia terminar aí, não fosse uma conversa que tive semana passada com um companheiro de trabalho, que me indicou um site para comprar livros usados. Foi aí que a sinapse fechou-se e tudo fez sentido na minha cabeça: O estantevirtual.com não é apenas uma rede para que os livreiros e donos de sebo comuniquem-se. O usuário final também pode consultar e comprar livros, de qualquer lugar do Brasil. Se o sebo da sua cidade fica longe, ou não é tão rico ou interessante quanto gostaria, não tem problema: compre livros de sebos em BH, Curitiba, Porto Alegre ou Araraquara!
 
Eu tive que testar o serviço. Pesquisei livros que há tempos não vejo em livrarias (edições esgotadas, acredito eu) e encomendei cinco livros dos mais variados lugares do país (procurei os mais próximos da minha cidade, para pagar um valor menor de frete), e posso dizer que fiquei mais satisfeito do que o esperado. Como se diz em marketing: o serviço entregue superou as expectativas do cliente, e o encantamento foi consequencia.
 
O processo é básico: Quando escolho um livro, o Estante Virtual já calcula o valor do frete + valor do livro; a partir do momento em que clico para confirmar a compra, um e-mail é enviado ao sebo, indicando que alguém está interessado no livro “X” que consta em seu acervo. O sebo então confirma se o livro realmente está disponível e envia um e-mail diretamente ao comprador com os dados bancários para que seja feito o depósito do dinheiro. Basta então confirmar o depósito (eu copiei a tela do internet banking) via e-mail também e pronto.
Algumas lojas enviaram-me até o código rastreador, para checar na página dos Correios o status da sua encomenda.
 
Quero frisar que das cinco compras que fiz na mesma noite, dois me surpreenderam pois responderam em cerca de 20 minutos, confirmando a disponibilidade e informando dados para depósito bancário. Outros dois me confirmaram na manhã seguinte (intervalo também totalmente aceitável). Apenas uma das lojas não tinha mais o título disponível, mas foi extremamente educado ao desculpar-se pela falha de atualização do cadastro e convidou-me a conhecer a loja ‘in loco’, uma vez que ele atentou-se ao fato de eu morar na mesma cidade onde se localiza sua loja.
 
Eu recomendo o Estante Virtual. Com R$9,00 (R$6,00 + R$3,00 de frete) eu comprei o clássico A Máquina do Tempo, de H.G. Wells. Na livraria Cultura o mesmo livro sai por R$27,00 + 4,50 de frete. Confirme clicando aqui!
 
Faça as contas e me responda se puder: Pagar mais pra quê?

TED – Ideas Worth Spreading

27 Julho 2008

Você já ouviu falar de www.ted.com ? Conheco o site já há algum tempo, e posso dizer que desde a primeira madrugada navegando por ele, fiquei encantado por seu rico conteúdo. A história é o seguinte: todo ano, os pensadores mais influentes do planeta unem-se durante 4 dias em Monterey, CA e fazem o que eu imagino ser o BRAINSTORM mais interessante do mundo. São pessoas inovadoras, criativas, que apresentam suas idéias aos felizardos presentes. ”The ultimate brain spa” ou “Davos for optmists” são alguns dos apelidos que as conferências TED receberam dos palestrantes. Essa conferência já acontece há 25 anos, mas você pode imaginar que com a internet a coisa agora atinge – literalmente – o globo todo. O site tem um layout interessante e disponibiliza as palestras gratuitamente para deleite de qualquer um, sem cadastro nem preenchimento de formulário. Você encontra desde o Richard Dawkings com seu ateísmo radical, passando por Bill Gates, Clinton, Steve Jobs até o ecochato Al Gore discursando sobre o clima.

Não se adapatar ao video player em flash do site TED não é desculpa para não usufruir: digite TEDtalks no youtube e tenha acesso ao mesmo conteúdo do TED.com.

TED stands for Technology, Entertainment, Design. Has began in 1984 as a conference devoted to the converging these three fields. Over the years, the scope has broadened. But the formula remains the same: Gather the world’s leading thinkers and doers; offer them four days of rapid-fire stimulation. The result? Unexpected connections. Extraordinary insights. Powerful inspiration.

Admito que não sou usuário assíduo do TED. mas fico admirado que um site com tanta coisa interessante não seja mais divulgado, comentado. Tudo bem, o fato de precisar entender inglês para compreender as palestras impede que muitos brasileiros aproveitem-no ao todo. Então, se você entende um pouco a lingua de Shakespeare, não perca a oportunidade.

Veja neste video uma apresentação sobre uma touch-screen interessantíssima. Aconteceu na TED.


Story of Stuff

22 Julho 2008

Recebi o link deste video por e-mail, e confesso que quase não o assisti, pois encontrar 21 minutos de tempo livre hoje em dia não é fácil.

Pensei melhor, e me recusei a não disponibilizar míseros 1.260 segundos para meu uso pessoal. Afinal, descontar esses “1/3 de hora” da minha noite de sono não faria tanta falta.

E não fez. Fui dormir pensando na idéia geral do filme, e me descobri refletindo sobre vários aspectos de minha vida que são citadas ali. Na verdade, o estilo de vida que a sociedade ocidental  leva é amplamente contestado.

Esse aqui é só o teaser do filme, com cerca de 30 segundos de duração.  

Quem se interessou pode pesquisar story of stuff no Youtube e ver o filme completo. Ou então clique aqui e veja a versão com legendas em português. Você pode checar tambem o site do filme, em inglês: www.storyofstuff.com

Acho que o segredo da boa aceitação do Story of Stuff é conseguir passar uma mensagem crítica à nossa sociedade sem ser agressivo.

Um filme de 20 minutos não tem como ser muito profundo. Claro que algumas idéias são mesmo um pouco exageradas - como quando Annie defende que ano após ano, os computadores tornam-se obsoletos apenas por conta de uma única peça. E caso essa peça pudesse ser substituída, você nunca precisaria trocar seu computador (acho que ela referia-se ao processador). A linguagem simples e direta, auxiliada pelas excelentes animações torna o filme digerível por pessoas dos seis aos oitenta anos de idade.

Acho que o objetivo central da peça é cumprido:  Que ao menos percebamos que algo não está certo em nossa sociedade.